• Luana Pegorin

Resenha – Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos.

Atualizado: Jan 18

“Mas tu deves admitir que às vezes a gente também possa sonhar...”


Marcando a literatura brasileira com sua narrativa ingênua e tocante, José Mauro de Vasconcelos nos presenteia, em 1968, com o “Meu Pé de Laranja Lima”, um livro autobiográfico que conta a história de Zezé, um menino espertalhão e arteiro, de seis anos que mora em Bangu, periferia do Rio de Janeiro, sempre se metendo em confusões e apanhando da família. Com mais de dois milhões de exemplares vendidos, já foi adaptado para três novelas e um filme, além de ser traduzido em 52 línguas e lido por quase 20 países, esse livro emociona qualquer um que passe por suas 203 páginas.


Remetendo-nos a uma realidade mais comum do que acreditamos, abrindo nossos olhos para uma situação que muitas famílias infelizmente passam hoje em dia: A pobreza. A família de Zezé sempre teve uma ótima condição de vida graças ao trabalho do pai, com mesas fartas de natal e muitos presentes. Porém tudo muda quando o mesmo perde o emprego, e a família, de quatro filhos, não vê outra saída a não ser ir morar em uma casa modesta e desconfortável, tendo que se adaptar a pouca comida e trabalho por parte de todos. A mãe se torna o melhor “ganha pão” da família, trabalhando várias horas por dia, já que o pai gasta o pouco que eles têm em jogos e bebidas.


Nessa nova casa, havia um quintal, que era preenchido por algumas árvores frutíferas. Quando se mudaram, o acordo era bem simples: cada um deveria tomar conta da árvore que escolhesse. Um pequeno pé de laranja lima é destinado aos cuidados de Zezé, e então, acompanhamos de perto uma relação de afeto que cresce a cada dia, através do olhar inocente de uma criança com uma imaginação fértil. O novo confidente de Zezé, Minguinho, que nos momentos mais íntimos entre os dois, também recebia o nome de Xururuca, era o ouvinte de todas as peripécias que Zezé aprontava, e também o fiel amigo nas suas aventuras que só crianças conseguem imaginar. Ali, percebemos que Minguinho atua como a válvula de escape da vida árdua e tortuosa que o menino deveria carregar nas costas.


Apesar das dificuldades, a pobreza não era o maior problema que afligia a vida de Zezé. Além de começar a trabalhar com apenas com cinco anos, vendo outras crianças de sua idade se divertindo com brinquedos que ele queria ter, Zezé também apanhava em casa. Mesmo tendo a fama de “menino do diabo”, por ser tão esperto e astuto, nada poderia justificar a violência com a qual o pai e a irmã mais velha o puniam de suas travessuras e pequenas confusões que gerava. Em cenas assim que vemos a inocência da criança sendo corrompida pelos castigos do mundo, pelo sofrimento, que omitia sua esperança de um dia levar uma vida melhor, pois Zezé chega ao ponto de querer desistir por tanta dor que sentia, quase morrendo pelos tapas e chicoteadas.


“Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar até desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo.”

Entretanto, Manuel Valadares, um homem rico e muito velho, era o melhor amigo de Zezé, o tratando carinhosamente como um filho. O menino o apelidara de Portuga, e nutria uma relação paterna afetuosa da qual nunca pode experimentar antes, compartilhando segredos e seu maior sonho: ser um poeta, “de gravata e tudo” como ele mesmo diz.


As descobertas que Zezé faz durante o livro, como o fato de aprender a ler sozinho, e tantas outras sobre o amor e o ódio, e como controlar esses sentimentos, são narradas de forma simples e cativante. Vamos acompanhando um menino que precisou amadurecer e descobrir as consequências das perdas cedo demais.





Esse livro me transportou para outra realidade, e me fez pensar quantos “Zezés” existem por aí, sacrificando suas infâncias para ajudar suas famílias, ou quantas crianças hoje em dia apanham e sonham com a vida que eu e você partilhamos. É uma leitura importante justamente por esse ponto, e também por outras reflexões que o autor nos convida a fazer. É um livro muito bem arquitetado, rico em lições que são dadas na sutileza das falas de Zezé.



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