• Luana Pegorin

Folhas de Outono

Atualizado: Jan 12

"Para todos aqueles que tem o dom de transformar coisas simples em arte."


Ouvir o atrito do asfalto com as folhas secas que atravessavam a rua incentivou-me a fazer o mesmo. Parei junto a elas na guia da calçada, enquanto esperava um carro acinzentado passar por mim, seguido de uma moto que intensificou o vento ao meu redor, fazendo com que as pequenas folhas, até então acomodadas ao pé da árvore ao meu lado, voassem ao meu redor.


Finalmente, cruzei a rua experimentando um toque gelado em meu ombro: logo estaria chovendo. Nuvens carregadas são um convite para que todos fiquem em casa, ainda mais quando se é outono e não conseguimos medir a intensidade da chuva somente observando o céu. Por conta disso, acreditei estar sozinha ali.


Meu salto confirmava que estava andando sobre folhas secas, já que vez ou outra pude ouvir o ruído delas se partindo conforme apertava o passo. Foi quando ergui a cabeça para analisar novamente o céu que pude ver uma cena um tanto singular: uma senhora, agachada na mesma calçada que a minha, procurava persistentemente algo entre as folhas.


Confesso que parei bruscamente, de modo que a alça da minha bolsa caiu de meu ombro até minha mão, no bolso do casaco que me aquecia. Como não tenho motivos para omitir a verdade aqui, devo dizer que me convenci que deveria ajuda-la, porém o sentimento que me invadia mesmo era curiosidade. Reparei que ao me aproximar ela ainda não notava minha presença. Então, eu só tinha uma escolha:


- Com licença, a senhora quer ajuda? Perdeu alguma coisa?


Cautelosamente, senti que fui alvo de uma análise dos pés a cabeça pelos olhos vagos dela.


- Não... Obrigada querida.


Em seguida, se levantou e pude ver o que ela queria levar consigo: folhas. Selecionava cada uma como se fossem individualmente especiais. E pelas sacolas cheias que carregava, calculei que ela estava ali a um bom tempo. Mas porque querer tantas folhas secas e sujas, daquelas que ignoramos e destruímos tantas vezes ao dia sem notar?


Quando ela virou a rua não pensei duas vezes e a segui. Depois de pequenas travessas e caminhos silenciosos, enquanto torcia e me esforçava para que ela não me visse, um pequeno gramado abaixo de uma ponte surgiu junto à figura dela depositando o conteúdo da sacola em uma espécie de baú. Também haviam pessoas que circulavam a pequena praça, forçando-me a assimilar aquilo a uma exposição. Assim que apertei os olhos para ver melhor, entendi o que estava acontecendo, e deixei de lado a necessidade de me esconder, soltando um suspiro daqueles quando somos impressionados.


Com uma placa escrita “Folhas de Outono" em um poste de luz próximo, estavam ali sobre a grama várias mesas, distanciadas e as quais as pessoas rondavam, que serviam como estantes para colares, chapéus, colchas, quadros e almofadas, feitas de folhas secas.


Um grupo de mulheres provava colares e apontava brincos umas para as outras, diante de um espelho. Três crianças brincavam com uma pipa, também feita de folhas. Outros observavam quadros que reuniam folhas secas em sua moldura dourada. Passei por várias estantes que vendiam artesanato dessa maneira, mas também passei por vários sorrisos e olhares empolgados. Minha certeza de que ela confeccionava tudo aquilo se confirmou quando a vi sentada numa cadeira costurando algo com suas queridas folhas.


Após dar voltas em sua lojinha ao ar livre, escolhi um pingente, uma pequena pétala de girassol seco. Ao sair debaixo da ponte, a chuva realmente apertara. Já acreditando que deveria esperar ali por algum tempo, a senhora se aproximou de mim, e me estendeu um guarda chuva, que para a minha surpresa estava revestido de folhas avermelhadas. Ela insistiu em me dar de presente sorrindo, e eu agradeci.


A caminho de volta, me convenci de que nunca tinha visto algo desse tipo, em toda a minha rotina apressada. Quando atravessei a rua, notei as folhinhas que corriam graciosamente junto a mim. A curiosidade de antes havia sido tomada por uma felicidade surpreendentemente boa, por saber que ainda existem pessoas que sabem transformar coisas que descartamos, em arte.

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