• Luana Pegorin

Entre Rosas e Lírios

Atualizado: Jan 2

"- Não é trabalho acrescentar cor a vida das pessoas..."



Observei a brisa gelada daquela manhã envolvendo aos poucos a chama da minha xícara de café, fazendo com que a pequena elevação de fumaça rodopiasse pelas bordas de porcelana. Ergui meus olhos até a janela ao meu lado, e me deparei com a Estação de Trem começando a ganhar vida. Carros alucinados anunciavam que seria mais um dia corrido e comum, ao som de pneus em contato com o asfalto molhado. Uma garoa fina repousava sobre os ombros dos trabalhadores, ao passo que portas comerciais estavam sendo abertas. Atentava meu olhar a diversidade de pessoas que chegavam e partiam da estação, cada qual com sua essência, o que resultava na originalidade dessa cidade. A chuva, que então apertara, trouxe consigo um ar de natureza, retratando o clássico clima subtropical da minha cidade, enquanto a calçada começava a receber os primeiros passos de pessoas atarefadas.


Voltei minha atenção para o café, que agora não expirava mais aquela fumaça. Seu cheiro havia sido substituído por um aroma mais doce, algo levemente puro e delicado. Afim de encontrar a fonte desse perfume, virei minha cabeça para o salão tranquilo da cafeteria. Então, avistei uma garota que tocava o chão sem sapatos, com passos largos e cabeça baixa, fazendo com que seus cachinhos ruivos tocassem seu ombro, que sustentava um vestido azul como o céu. Descobri que a fragrância vinha de seu cesto, repleto de flores coloridas e alegres. Um sentimento estranho corroeu meu coração: O que faria ali aquela criança?


Confesso a você, que tentei pensar em outra coisa, nas minhas tarefas de escola... nos meus problemas pessoais... olhar pela janela para ver minha cidade..., mas a visão daquela pobre garota desprezada pelo mundo não me deixou nem mesmo dar o último gole do meu café. Deixei meus olhos serem guiados por ela, que estava a várias mesas de mim. Ela começou a andar pela cafeteria, e para a minha surpresa, as pessoas estavam comprando suas flores. Ela vendia rápido, como se estivesse com pressa, de forma que eu nem podia ver o dinheiro em suas mãos. Passando por cada pessoa que tomava seu café naquela manhã, todos aceitavam suas flores, e agradeciam com um sorriso. Quando ela passava, o semblante das pessoas ao seu redor mudava. A garota acrescentava uma cor especial ao lugar, como uma pequena artista que experimentava tons em sua tela em branco.


Para os casais, notei que ela oferecia rosas vermelhas, e eles a retribuíram expirando simpatia. Para outros, ela sugeria lírios, brancos como a lua, que realmente, deixavam um brilho no olhar de cada um. Ela se aproximou da minha mesa, emitindo aquele cheiro fresco e natural. Ouvi seus passos, mas fingi estar concentrada na janela que sustentava pingos de chuva:


- Uma rosa ou um lírio?


Sua voz era calma e delicada. Ela estava parada na minha frente, com sua cestinha perfumada e organizada. Meu coração se apertou de novo:


- Um lírio, por favor. Quanto custa?


- Um sorriso....

- Elas não estão á venda? Não é seu trabalho?

- Não é trabalho acrescentar cor a vida das pessoas...


Ela colocou um lírio delicadamente em minha mesa, enquanto sorria. Fiquei observando o pequeno gesto daquela garotinha trazer tanta felicidade com apenas algumas flores. Ela me desejou um bom dia, e eu, ainda surpresa, fiquei olhando-a sair da cafeteria. Pela janela, reparei que ela andava e entregava rosas e lírios, fazendo aparecer sorrisos iluminados e rostos rosados, no lugar de fisionomias preocupadas e inquietas, como uma mágica. E de repente, pude ver minha cidade com vários pontinhos coloridos, pequenas imitações de estrelas, o que tornava minha cidade um céu de esperança em meio a asfaltos e prédios, graças ao simples gesto de uma garotinha.

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